Páginas muito cheias têm uma mania horrível de chegar antes da gente.
Lotam, enchem inteiras, e nem dá direito pra ver quando foi isso. Só vemos as páginas todas sujas de coisas dos outros. Poucas minhas, mas não me lembro. Chego no mundo e já vejo tudo pronto, tudo esticado em linhas. Aí vem você, com suas letras atrasadas, tentando se enfiar pelo meio das outras. Tenta com uma perninha mais curta, espreme a palavra amassando bem, tudo até virar careta. Mas ninguém, nenhum dos que já estão se move.
Os já estados são cegos, surdos, e velhos. Não deixarão de estar, mesmo que sua estada nada diga em conjunto, nem que seja por um sopro, pra você esticar uma perna do p ou encher bastante o pulmão do O.
Tentei, uma vez, me esconder entre as linhas. Fiz até ironia bonita, mas, quase não vista, fui desaparecendo daquela morte transparente que não faz falta. Sei que isso, de completar as entrelinhas, também tentou outro, e que sabe até um outro do outro. Mas, de verdade, os que vi nunca mais vi depois.
O jeito é ir se pendurando nas bordas, se acomodar nos cantinhos em cima dos números das páginas. E embaixo também. Deitar bem fininho no rodapé e prender o cabelo, pras pontas não ficarem de fora quando fecharem o livro.
Também vale se encostar pelos cantos, rabiscar na margem nossos rabiscos todos tortos, pintando pedacinhos de papel em branco. Marginalizando as palavras.
dezembro 2, 2011