Espalmava as mãos desfeitas desde as costelas até o cós torto da calça. Os músculos mal recortados criavam pontas irregulares no corpo truncado, que entortava o tecido e impedia que a roupa se vestisse bem. O pó suado, disputando espaço com as cutículas, descia junto, preso às unhas confinadas aos dedos atracados às mãos tesas, resignadas à tentativa de esticar a camisa sobre a pança, de empurrar a sujeira até onde não fosse vista. O intento tosco, que lhe estufava o tórax e alongava as vértebras, antes de conferir o procurado digno ar de abdômen, trazia aos seus ombros elevados um ar de calombos subidos. Que lhe encabulava a visada, que se entrava junto à cabeça e o pescoço dentro do colarinho que fazia sombra em sua cara tostando a pele a cor daquele povo severo.

Sem pegadas já dadas que opusessem a situação, puxava a camisa embasbacada na tentativa de cobrir o encardido. Encarnado um encardido, de certo. E como a tudo na vida se acostuma, até ao hábito, seguia a regra e acostumara-se ao hábito e pronto. Equilibrava, sem muita cerimônia, as toneladas de antropologias complicadas que se acolunavam sobre sua cabeça e faziam enfiar-se o queixo no peito. Seu peito.

Lucrando daí, enumera-se, de um a oito. Uma lordose desanimada, o torcicolo, uns estalidos de coluna ressequida, uns calombos de testa que se somam aos calombos de dedo, um nariz baixo. Um tumor na estima, aquele encardido do colarinho. Uma asma de aspiração ruidosa, um tanto apertada, da faringe que se economiza dividindo o quarto com a laringe, uns pêlos duros de barba do queixo guardado pra dentro, os três filhos a dona e as coisas poucas. E de último que existe mais por completar, um engolir seco que cai com desgosto, apertado ali em cima também, no deglutir, que empurra o mesmo queixo para cima só de atrevimento por ser o último a vir. Aquele espevitamento que não pede licença pra não incomodar, e só não deixa de ir porque parece bastante que não se pode ficar.

Fora isso, era só o parado. Cheio de espaços desavisados, onde a poeira, o pó, e até uma terrinha daquelas mastigadas, se aproveitavam do suor e se apegavam a pele, secando, fazendo da terra rala e da água um cimentado de corpo. Estocado.

Às vezes era difícil agarrar a vida. Escorregava pelas mãos no exato momento em que os polegares paralisavam. Jaziam inertes, sobrando-lhe os oito outros dedos, que pinçavam e retorciam uns aos outros na tentativa de fazerem uma mão humana toda.

Quando por fim escorregava, os dedos compridos desesperados corriam se lançar sobre o ralo, uns sobre os outros ordenados, formando uma rede que impedia que ela vazasse. Aí era só ouvir o roncar da água se enroscando nos dedos e nos canos até descansar e voltar. Levantar a rede com delicadeza, equilibrando escorregadia sem acordá-la, enfiar no bolso e continuar.