Uma vez de se acostumar com um corpo, a todos os outros corpos já se está mais ou menos a um rentinho de se acostumar. Mais das pernas mais finas, menos das mãos menos quentes. No contorno final as linhas esbarram quase sempre no mesmo espaço, variando em tempos mais. Delimitado o que é seu espaço dos outros corpos, o de você fica sendo aqui, e do outro um outro igual, que cabe nas mesmas posições das mãos, no mesmo articulado dos braços, na mesma água. Dá quase sempre certo, do mesmo jeito. Já perdi as contas de com quantas pessoas iguais desci a Paulista. Sendo a mesma pessoa, todas as vezes, eu única, com o mesmo passado de a pouco tempo, baixo a augusta, pensando no mesmo futuro que quase sempre envolve silencio pouco de projeções levemente momentâneas, pesadamente irrefletidas, inercialmente efêmeras. Em geral, fica assim posto que seja eu quem nunca mudo. Apoiando, sempre de maneira única, os mesmos corpos, diferentes, no mármore que carrego pavimentação adentro. Usando da rotatividade como vacina à comoção minguada.

Não que tivesse sido um dia diferente, mas talvez exatamente por isso. Era um dia tão igual que todos os outros dias se sobrepunham a ele, e ficava difícil distinguir. Não se sabia o que pertencia a cada dia, e era quase impossível separar suas datas. Assim pesava. Pesava porque as memórias, guardadas com certo senso de praticidade, se emocionavam ao se encontrar todas num dia só.
Andando, lembrou-se de vários espelhos e as gotas de sangue, o suor debaixo da camisa de linho fino e as páginas das coisas irrealizadas do romance rompido. Chegou em casa sem pensar em chegar, de repente estando lá. Rasgou os envelopes com a mesma paixão e em nenhum deles encontrou idéia nenhuma. Pelo menos nenhuma para ele. Engraçado como, ultimamente, até as caixas de correio das casas tem se transformado em local público. Deve ser só solidão, de qualquer forma.
Tirou do bolso da calça, um pouco constrangido, recortes do jornal que lera mais cedo. Sempre tinha essa sensação inquieta ao cair da tarde, que o introvertia meio envergonhado. Talvez algo no seu esperar fosse levemente falho.
Pela manhã as notícias são novas, as possibilidades inéditas estão todas lá, escancaradas, a espera de alguém que as recolha e lhes entregue um pouco do significado da boa vontade. Sempre que chega a noite, isso tudo se deflagra logo com o nem tanto. À noite, tudo já meio passado, o pedaço de jornal puído de tanto sentar-se em cima, as idéias um pouco doloridas da posição imóvel. As novidades, já cansaram de mostrar sua cara, se contentam em ser irrelevância passada, se apagando um pouco do papel, mesmo sem a ajuda do suor.
Ele sabia disso, e queria parar o processo. Toda noite colava um pedaço de jornal novo num grande mural, englobando as notícias mais irrelevantes. Sabia ele que os mais discretos são os que, se não existem melhor, pelo menos existem mais. E sendo pelo menos é muito mais difícil cair demais.
Quando a impaciência o toma é finalmente hora de dormir. Dormir para acordar amanhã.  Amanhã será sempre o dia de hoje parado no tempo. Parado nos mesmos trinta anos em que espera a revolução irrefreável. Nem um dia a mais, nem um recorte a menos.

Há trinta anos espera pacientemente a revolução irrefreável. Hoje acordou como quem levanta carregando a cama inteira nas costas. Arrastou-se até o banheiro e fingiu mijar por dez minutos, só para poder apoiar a cabeça na parede sem culpa.

Teve um pouco de febre durante a madrugada e o suor deixou seu cabelo oleoso, como se tivessem cuspido nele. Várias vezes. Mas, tendo gastado seus dez minutos apoiado na parede, decidiu-se por deixar o cabelo assim mesmo e só fazer a barba.

Como estava frio jogou muito pouco da água gelada na cara. Acabou com um número considerável de cortes da lâmina. Sangue e Saliva. Iria escrever um romance. Mês que vem.

Chegou ao trabalho com o jornal debaixo do braço. Mas dentro do saco. Semana passada suara tanto no ônibus que a tinta das letras do jornal havia derretido e se misturado com as fibras da camisa. Bem debaixo do braço. Passou, então, a assinar o jornal. Só assinantes recebem jornal dentro de saco plástico, toda manhã.

Sentou em sua cadeira e abriu o jornal. Há pouco menos de trinta anos vasculha todos os dias o jornal. Quer se certificar de que não vai ser enganado por nenhuma farsa tomada por revolução, nenhuma revolução diluída que desestruture sua busca real pela revolução implacável, nenhum alarme falso que desfoque sua atenção.

Gosta de armazenar informações. Tenta manter suas memórias ordenadas, para o caso de ser biografado como verdadeiro anfitrião das conseqüências revolucionárias. Afinal, se acredita um veterano na espera. Possivelmente também as usasse, as memórias, em seu romance, o que achava realmente muito pouco provável de um dia chegar a acontecer, principalmente no caso de ter de se ocupar com a defesa dos ideais que estavam por vir. Há trinta anos. Mas de qualquer forma, por pura esperança da raça, armazenava as coisas simples, sem detalhes muito granulados que pudessem atrapalhar os afazeres cotidianos.

De tempos em tempos retoma as histórias, todas em ordem cronológica, para ter certeza de que mantém atualizado o currículo de vida. Mais ou menos isso: Mediano no colégio, classe média, colégio público naqueles tempos em que ainda eram bons, ele conta. Faculdade mais ou menos, um namoro mais ou menos, outro, uma vida assim, quase mais ou menos vivida. Acordava cedo, tomava banho antes de dormir, sempre. Fazia a barba quantas vezes pusesse os pés na rua. Não punha muito, de qualquer forma, seja porque não era certo, seja porque não queria repetir os cortes. Era quase sempre, todo dia, o dia de hoje. E de fato estava correto.

Na hora do almoço sentava com um amigo a beira de qualquer muro que se deixasse sentar. Nenhum dos dois conversava muito. Nenhum dos dois comia muito. Era uma relação sem desperdícios, ao passo que, ao final de quase dois anos de convivência, descobriu que seu amigo era casado. Quanta audácia, pensou, e continuou a se economizar.

Comentou o obituário do jornal, ponderou a idéia de que as pessoas têm morrido bem velhas ultimamente. Era algo interessante, de qualquer forma. O outro concorda de leve, mastigando alguns grãos de arroz.

Num dia perdido desses se impressionou com o fato de ter sobrevivido a esse dia em especial. Não que tivesse sido um dia diferente, mas talvez exatamente por isso. Era um dia tão igual que todos os outros dias se sobrepunham a ele, e ficava difícil distinguir. Não se sabia o que pertencia a cada dia, e era quase impossível separar suas datas. Assim pesava. Pesava porque as memórias, guardadas com certo senso de praticidade, se emocionavam ao se encontrar todas num dia só.

Andando, lembrou-se de vários espelhos e as gotas de sangue, o suor debaixo da camisa de linho fino e as páginas das coisas irrealizadas do romance rompido. Chegou em casa sem pensar em chegar, de repente estando lá. Rasgou os envelopes com a mesma paixão e em nenhum deles encontrou idéia nenhuma. Pelo menos nenhuma para ele. Engraçado como, ultimamente, até as caixas de correio das casas tem se transformado em local público. Deve ser só solidão, de qualquer forma.

Tirou do bolso da calça, um pouco constrangido, recortes do jornal que lera mais cedo. Sempre tinha essa sensação inquieta ao cair da tarde, que o introvertia meio envergonhado. Talvez algo no seu esperar fosse levemente falho.

Pela manhã as notícias são novas, as possibilidades inéditas estão todas lá, escancaradas, a espera de alguém que as recolha e lhes entregue um pouco do significado da boa vontade. Sempre que chega a noite, isso tudo se deflagra logo com o nem tanto. À noite, tudo já meio passado, o pedaço de jornal puído de tanto sentar-se em cima, as idéias um pouco doloridas da posição imóvel. As novidades, já cansaram de mostrar sua cara, se contentam em ser irrelevância passada, se apagando um pouco do papel, mesmo sem a ajuda do suor.

Ele sabia disso, e queria parar o processo. Toda noite colava um pedaço de jornal novo num grande mural, englobando as notícias mais irrelevantes. Sabia ele que os mais discretos são os que, se não existem melhor, pelo menos existem mais. E sendo pelo menos é muito mais difícil cair demais.

Quando a impaciência o toma é finalmente hora de dormir. Dormir para acordar amanhã.  Amanhã será sempre o dia de hoje parado no tempo. Parado nos mesmos trinta anos em que espera a revolução irrefreável. Nem um dia a mais, nem um recorte a menos.

Espalmava as mãos desfeitas desde as costelas até o cós torto da calça. Os músculos mal recortados criavam pontas irregulares no corpo truncado, que entortava o tecido e impedia que a roupa se vestisse bem. O pó suado, disputando espaço com as cutículas, descia junto, preso às unhas confinadas aos dedos atracados às mãos tesas, resignadas à tentativa de esticar a camisa sobre a pança, de empurrar a sujeira até onde não fosse vista. O intento tosco, que lhe estufava o tórax e alongava as vértebras, antes de conferir o procurado digno ar de abdômen, trazia aos seus ombros elevados um ar de calombos subidos. Que lhe encabulava a visada, que se entrava junto à cabeça e o pescoço dentro do colarinho que fazia sombra em sua cara tostando a pele a cor daquele povo severo.

Sem pegadas já dadas que opusessem a situação, puxava a camisa embasbacada na tentativa de cobrir o encardido. Encarnado um encardido, de certo. E como a tudo na vida se acostuma, até ao hábito, seguia a regra e acostumara-se ao hábito e pronto. Equilibrava, sem muita cerimônia, as toneladas de antropologias complicadas que se acolunavam sobre sua cabeça e faziam enfiar-se o queixo no peito. Seu peito.

Lucrando daí, enumera-se, de um a oito. Uma lordose desanimada, o torcicolo, uns estalidos de coluna ressequida, uns calombos de testa que se somam aos calombos de dedo, um nariz baixo. Um tumor na estima, aquele encardido do colarinho. Uma asma de aspiração ruidosa, um tanto apertada, da faringe que se economiza dividindo o quarto com a laringe, uns pêlos duros de barba do queixo guardado pra dentro, os três filhos a dona e as coisas poucas. E de último que existe mais por completar, um engolir seco que cai com desgosto, apertado ali em cima também, no deglutir, que empurra o mesmo queixo para cima só de atrevimento por ser o último a vir. Aquele espevitamento que não pede licença pra não incomodar, e só não deixa de ir porque parece bastante que não se pode ficar.

Fora isso, era só o parado. Cheio de espaços desavisados, onde a poeira, o pó, e até uma terrinha daquelas mastigadas, se aproveitavam do suor e se apegavam a pele, secando, fazendo da terra rala e da água um cimentado de corpo. Estocado.

Às vezes era difícil agarrar a vida. Escorregava pelas mãos no exato momento em que os polegares paralisavam. Jaziam inertes, sobrando-lhe os oito outros dedos, que pinçavam e retorciam uns aos outros na tentativa de fazerem uma mão humana toda.

Quando por fim escorregava, os dedos compridos desesperados corriam se lançar sobre o ralo, uns sobre os outros ordenados, formando uma rede que impedia que ela vazasse. Aí era só ouvir o roncar da água se enroscando nos dedos e nos canos até descansar e voltar. Levantar a rede com delicadeza, equilibrando escorregadia sem acordá-la, enfiar no bolso e continuar.

hoje em dia não se faz mais aurora

hoje de manhã foi noite pra sempre

Eu trabalho numa editora. As pessoas vêm aqui, sentam nas cadeiras, e publicam seus livros. Algumas pedem café. Outras já sabem que o café é ruim. Essas últimas são as pessoas que já publicaram um livro antes. E voltaram. Tem gente que volta rápido. Tem gente que demora. Alguns nunca voltam. A maioria. A maioria esvazia depois das primeiras 80 páginas, a capa com laminação fosca, o ISBN. ISBN faz parte da ficha catalográfica. A gente tem que explicar isso sempre. Logo depois do café. A maioria nunca volta depois do café. É, acho que é isso.

Mas eu não falo com elas. As pessoas sentam nas cadeiras de costas pra mim. Essas pessoas de costas falam com as outras pessoas que, como eu, trabalham nessa editora. Elas sentam nas cadeiras e seguram xícaras frias, enquanto discutem número de páginas, fonte, 90 gramas. 90 gramas é a qualidade do papel. A gente tem que explicar isso também. Teve um cara que riu, um dia. Era poeta. Falou que noventa gramas mata. Seus poemas eram ruins. Acho que ele tinha morrido. Não tinha poesia nenhuma ali.

Eu sei disso porque eu vejo os livros. Eu vi o livro ruim do poeta cocainômano. O papel. Eu vi o autor, mas não falei com ele. Eu falo só com os livros. Com o papel. 90 gramas, chamoi, sulfite, reciclado.

Uma vez fiz uma autora publicar seu livro em papel reciclado. Falei para a moça que trabalha comigo que seria bom assim. Ela achou também. Falou pra autora. Que gostou da idéia. Consegui um livro reciclado pra mim.
 
Fora o papel, quase sempre tenho vontade de perguntar. Pra eles, os autores, antes de virarem papel, o que eles escreveram. É uma editora independente. Ninguém liga para o que está escrito. Só para as páginas. E o tamanho da fonte. Ninguém quer discutir muito.

Eu acho que também não iria querer. O café, aqui, é ruim. E não se pode fumar.

Alguns acho que se ofenderiam. Como assim, virar papel. Eles acham que quando vira papel a coisa nasceu. Eu acho que morre. Talvez dissesse isso. Mas aí diria uma vez só. Depois ia embora.

Não, tentaria me segurar. Ia perguntar sobre o livro. Só sobre o livro. Do papel eu só ligo de como se sente ele na mão. Na pele da mão esfregando o papel debaixo da pele. Ia perguntar se mão suava. E se molhava o papel debaixo. Como era isso. Se ficava vermelha a cara. Esperando desentupir a frase grudada. Se respirava alto porque esquecia do mundo. Quando o mundo não escuta a gente respira alto. Ia querer saber a coisa mais simples. Se esperava sair a coisa… ou se ficava a coisa e por isso era bom.

só isso. O que tem aí dentro?

Acho que as pessoas se ofenderiam.

Encenação daqueles dois que não tem um só mundo real

 - Sai do banho com tanto soluço que tive toda certeza que a água que escorria do cabelo era toda salgada e ia engasgar minha garganta toda. Tudo tanto, assim. 

- Eu vi, via de longe. Tava passando os dedos da raiz até as pontinhas do cabelo, secando lágrima por lágrima. Vou comer toda a sua tristeza. Lavar todas as lágrimas.

 - Gosto dos seus poros. Que me secam me olhando de atravessado que eu sorrio pra eles que se fecham e eu só caio de rir mais. Os buraquinhos, cada um num cada da sua pele, esticada de gente grande escondida nos nós dos dedos pernas e narizes de criança. Aqueles vários furinhos de você que levam lá pro fundo de você de novo. Eu sempre achava que levavam.  

- Vou pegar um a um desde a raiz, enquadrar numa foto só de você, seus olhos e uma grama bem verde de lugar nenhum.

 

-

 

- Vou comer todas as suas lágrimas. Te assoprar de ar leve assim como te atravessando de um lado ao lado do outro e vai ficar tudo bem. Nem tanto quanto antes, mas enquanto a gente passa ouvindo o vento passa assoprando pela gente e retira as migalhas que ficam grudadas. Enquanto a gente sobrevive do outro lado.

alice que cansou de ser alice e não sabe quem vai ser agora.

Acabou o tempo. Ontem no mês passado, correu para semana passada, de novo, ontem. Quatro, três, dois. Um recente na respiração e já, soluço. Se foi tanto tempo de não caber nada, que eu me perdi e resolvi dormir aqui. Deixei para amanha o resto de ser. Vou, procurar as chaves de casa amanhã. Uma por uma. Um de cada vez, mas um por um no máximo. Nunca um sozinho, que é muito difícil. Não coube, tão enfiado em liberdade chutada.

Bom dia calado, para quem disse tudo ontem, um bom tanto, agora só bom dia que se repete, de novo. A boca seca, palavras que se desprenderam e aspiravam-se para fora. Levando saliva, água, um pouco de ar. Deixaram nada para sugar, e afogou.

Aceno, de palmas secas que ecoam de palmas estiradas, que ecoam de pele seca, ecoam de palmas abertas, ecoam de palavras esticadas, palmas. E o aplauso ainda faz encolher.

Ainda tenho medo de que me olhem e vejam as palavras que ficaram grudadas em mim, daquilo que ia dizer e não foi. Sobras íntimas. Voltou no eco do aplauso. O que não soube coexistir com o que foi ontem, e invadiu meu bom dia, justo de dia.

Só deixo ver o intruso. Aquele que foi expulso hoje, quando abri pela manhã. Palmas aos rejeitados que saem atropelando às próprias pernas, que saem na pose de dissidentes desdobrados. Eco errado. Vai e volta igual. Ontem, voltou no aplauso do eco.

acabei com as lágrimas todas

e ainda tenho o choro seco que sobe arranhando tudo

fumo, só para esconder o cheiro do medo.

Me deito com o homem sem palavras. Não, primeiro me jogo na cama para ter certeza de que nada vai machucar minhas costas. Depois me levando e me coloco ali de novo, com calma, para combinar com a cena. Pergunto para o homem sem palavras o que os cegos sonham, aqueles que foram sempre cegos sem ver, pergunto ao homem sem palavras no que ele pensa, se ele pensa no mundo sempre assim, de um jeito meio cubista, sem dizer nada, sem contornar.
O homem sem palavras que não tem opinião nenhuma, do amor momentâneo, do sexo casual, não me disse nada. Nem do nojo, que vem depois. Mania boa de quem cala, ninguém quer discutir isso depois, é entalado naquele momento e fica, indo embora a cada dia, sem despedida.
Me enrolo em cobertores, depois. É o gelado do verão na capital, gente mal humorada na rua. Eu e meu diafragma distendido paramos, esperando desentender.

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